Vanessa de Carvalho, a empregada da vida… (Conto de Terror)

Vanessa era uma manicure num salão unisexo no centro de Caracas na Venezuela. Era uma aplicada e sabida empregada. Seu marido, filhos e ela, eram de nacionalidade portuguesa e tinham fugido para a Venezuela porque Manuel, o seu marido, tinha praticado incesto com uma de suas filhas quando esta tinha apenas 15 anos de idade dentro do seu próprio negócio. Era frequente Vanessa ser traída pelas costas por Manuel com algumas mulheres daquele calorento, agitado e “formiguento” país. Vanessa não tardou após violentas discussões e alguns anos de desespero a deixar o país e a pedir a separação do seu marido. Voltou para o seu país de origem e tentou uma vida nova…

Destruída, conseguiu com dificuldade alguns empregos na terra onde sua mãe vivia, teve alguns namorados inclusive e fez de tudo para procurar alguma estabilidade e conseguir pagar as suas quase impossíveis contas do final do mês. Ainda assim era considerada uma mulher autónoma e independente. Era muito bonita e gostava de suas saídas pelos bares da noite, teve muitos amigos e fez muitos conhecidos. Vanessa era uma mulher integrada e social, com as suas dificuldades mas com sua própria vida. Seu único defeito era não conseguir permanecer por muito tempo nos seus empregos, era frequente ter problemas com seus colegas e colegas de trabalho com que tinha uns namoros, inclusive por uma vez teve de trocar de trabalho e colocar o colega em tribunal por violência física. Este tinha-a empurrado pelas escadas a baixo por ciúme de ela ter um caso com o patrão. De facto ela tinha traído o “colega namorado” mesmo, nestes casos lei é lei e o caso foi em frente até que fosse feita justiça para felicidade sua.

Tentou outro país e teve outros namorados mas nunca assentou ou quis de facto ficar para o resto da vida com qualquer um deles. Namorou muito e aprendeu muito também, até que de volta ao seu país se apaixonou por um rapaz. Mesmo assim Vanessa o traía e vivia uma vida que deixara de ser à base suposições e onde só poderiam permanecer as certezas. Quando o rapaz descobriu também a traiu…

Ainda continuou a troca de emprego por emprego, sempre envolta de traições, permanências impossíveis e grandes tumultos e alaridos pela maior parte dos sítios por onde passou. Para ela não tinha que haver meio termo em nada e sempre que tinha uma boa e segura oportunidade para trair, assim o faria. Era a sua maneira e a que tinha encontrado para lhe garantir o seu emprego e força para continuar. A algazarra, a intriga e o espetáculo em seu torno garantiam o consumo e o divertimento quer de quem por lá passava, como o seu próprio divertimento pessoal. Era uma boa forma de viver que era de facto garantido, para além de apimentar mais a sua vida amorosa. Quem a tentasse contrariar ou apontar-lhe responsabilidades só sairia a perder e inclusive sairia apedrejado no orgulho e razão por todos os presentes.

Vanessa tinha aprendido a sobreviver num mundo cujo futuro ainda é uma incógnita para o mais comum mortal, e descoberto uma maneira de ser inquebrável e sempre capaz e com força para continuar em frente. Não dependia de ninguém, alguém que quisesse permanecer seria sempre útil para pagar as contas e o vinho que ela precisava para continuar.

Aos olhos de todos era uma pessoa boa, alegre e inteligente. Tudo à sua volta era considerado por sua própria inteligência, o que era algo difícil de ser concretizado pela maioria das pessoas que não conseguiam perceber como ela era capaz de tal sucesso, fama e tumulto que sempre a cercavam. Era muito admirada e considerada uma mulher com uma força incrível e muita corajosa. Era invejada por alguns.

Todos a quiseram ter, uns tiveram e outros não, outros fugiram para não serem falados nem interrogados por parte de alguns populares, outros conseguiu manter contacto e proximidade e outros foram levados ao desespero e lamúria. O que é certo, é que viveu intensamente, garantiu dinheiro a alguns e sempre recebeu. A sua falta foi muito chorada por muitos e foi muito falada dias a fim, sendo ainda hoje lembrada por muita e muita gente e objecto de assunto, choro e fortes gargalhadas, anos após anos, do dia do seu funeral…

 

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