Fez chuva no coração de João Esquecido… (Conto)

João Esquecido era um jovem de 36 anos esquecido pelos amigos após a morte dos seus pais. João vivia com a sua namorada Vanessa Trio e não gozava de uma boa relação nem Vanessa morria de amores por João Esquecido. João tinha recebido uma boa herança faziam 3 anos e Vanessa era uma mulher 10 anos mais velha e que embora se desse melhor com tipos mais vividos e seguros de si, precisava de João para ter uma vida melhor. Vanessa tinha 2 filhos crescidos do seu anterior casamento e não conseguia sobreviver com o que ganhava como secretária de uma oficina de pneus a 6 Km de casa.

Num dia solarengo e de muito calor, era quase verão e estava muito quente naquele dia de 30 de Abril. Depois de Vanessa chegar do trabalho, João ouviu Vanessa falar com o filho numa daquelas conversas infantis em código e bastante fáceis de entender. João não era burro nenhum e gozava de estar sempre a perceber bem e de perto o seu enteado ainda novo, era uma forma de saber sempre os segredos de Vanessa. Vanessa estava na cozinha a tratar dos animais de estimação enquanto seu filho mais velho planeava mais uma vez esgotar a paciência do seu padrasto combinando com a sua mãe como afastar João Esquecido. Queria que a sua mãe causasse uma pequena discussão à primeira oportunidade que tivesse para que João ficasse sentido e quando tentasse argumentar, Vanessa começasse uma discussão e mandasse João mais uma vez para fora de casa. João deitado no sofá apercebera-se que dia 1 de Maio era dia de pagamento de Vanessa Trio e logo continuou a assistir a programação da televisão para refletir e descortinar o que iria acontecer no dia seguinte.

Vanessa saía às cinco horas da tarde e a essa hora pediu a João que a levasse até ao multibanco para fazer o depósito do ordenado que recebia em numerário. Enquanto estava a fazer o depósito começou a argumentar com João como era previsto. João perguntou porque ela estava a dizer que ele não podia saber o quanto estava a depositar. João lembrou-se de nos anteriores empregos por vezes ela trazer mais dinheiro do que o costume, mas tinha toda a certeza que daquela vez não seria o caso e deixou-a argumentar até que esta começasse por si só aos berros como de costume quando o intuito era apenas arranjar discussão para expulsar João de casa. João conhecia-a muito bem e perguntava-se porque é que ainda estava com ela. Obviamente Vanessa não era uma mulher respeitadora pelo que João pensou desta vez aproveitar para a deixar para sempre.

Vanessa foi toda a viagem a argumentar e João aguentou-se calado. Ao chegar a casa Vanessa disse-lhe para nunca mais voltar para perto de casa dela e João saiu acelerado de casa, alegre como já não estava há mais de 8 anos, até disse adeus aos vizinhos dela que por ali estavam perto da berma da estrada enquanto se afastava daquele lugar. João só pensava na oportunidade que havia sido dada como oferta para uma vida melhor e perto de pessoas melhores ainda e sentiu que desta vez iria aproveitar ao máximo para se vingar com o tipo de divertimento em tudo o que aquela família lhe andava a “obrigar” e “impedir” de fazer. Pior não era a vontade de Vanessa que fazia com que João andasse sempre triste, pior era João não se sentir livre e respeitado perto daquela gente.

Assim foi, daí em diante João preparava-se sempre antes de jantar com um banho bem perfumado e saía para a rua em busca de aliviadora e tão ansiosamente esperada diversão. João não era de amigos nem precisava de gente que o privasse de se sentir livre ou que o desrespeitasse por perto. João sentia fortemente a vontade de viver sem a dependência da companhia de uma namorada e queria ser livre por muito tempo. João tinha atingido o limite da paciência dele e daí em diante ou talvez para sempre, dificilmente voltaria a querer ter uma relação com quem quer que fosse por mais do que uma noite bem passada. João não queria voltar a se apaixonar novamente, queria viver para sempre de uma forma segura e neutra, ou seja, não dar muita importância a quem estivesse com ele e considerar tudo o que pudesse lhe ser prejudicial como que algo de irrelevante e inútil para a continuação da sua felicidade.

As noites depois do terceiro dia de ausência estavam relativamente frias, mesmo naquele mês de Maio que tinha começado de forma tão calorosa e exaustiva onde nas tardes as gentes daquela terra só as poderiam passar debaixo da sombra quer na dos guardassóis das explanadas, quer na das suas casas…

Duas semanas e meia depois, Vanessa enviou uma mensagem de texto para João dizendo que precisava de comida para seus animais de estimação e que pagava no final do mês, mas João estava farto de se sentir apenas um objecto de uso e de não receber qualquer coisa em troca tal como um pouco carinho ou palavras boas ou algo que lhe fizesse sentir bem por ajudar, como um pouco de gratidão por exemplo e rejeitou ajuda-la. João não queria voltar para o pesadelo de outrora e estava ciente do que se estava a passar com ela e o que iria se passar de seguida quer no caso em que ele voltasse, quer no caso em que ele nunca mais regressasse. Nunca mais regressar era o mais provável de acontecer.

No aproximar das 4 semanas depois, João já tinha engatado uma mulher há qual lhe havia proposto uma noite de luar na varanda da casa dela. Algo que não chegou a acontecer pois o tempo aqueceu muito desde a noite anterior e aproximava-se uma violenta, escura e carregada trovoada. Letícia a sua eminente nova amante, desligou o telemóvel e bloqueou o numero tendo João nunca mais voltado a falar com ela por ter perdido a pouca vontade que tinha ainda de tentar qualquer tipo de re-aproximação ou contacto com ela. Seguiram-se dias de muita chuva e o mau tempo triste e inconveniente assombrava melhor sorte de João Esquecido. João enviou uma mensagem de texto a Vanessa perguntando se estava tudo bem com ela, mas ela não respondeu. Desde aí nunca mais voltou a falar com ela. A trovoada havia sido fora do comum e tinha causado imensos danos pelas terras por onde havia passado, inclusive alguns fortes incêndios e feito algumas vitimas mortais. João preocupava-se mas mal ganhava um pouco de consciência, deixava de pensar no assunto ocupava-se com os seus hobies e trabalhos de alguma forma lucrativos e esperava a noite para sair e se divertir, não tendo qualquer plano ou expectativas para o que lhe poderia acontecer, apenas queria aproveitar a sua nova liberdade para se divertir.

Logo logo, João teve os seus primeiros engates e suas primeiras relações de apenas uma noite com algumas mulheres mas embora tenha parado e refletido um pouco sobre se era isso mesmo o que queria para si, pareceu não se importar muito com o assunto. Era difícil encontrar a pessoa certa, João não conhecia ninguém nem sabia nada sobre alguém que avistasse ou conhecesse, mas sabia que de alguma forma o amor apareceria e preocupava-se apenas em não pensar muito nisso nem em voltar a cair outra vez no mesmo tipo de mulher que era Vanessa. Tentava descobrir alguém fácil de manter uma relação um pouco mais duradoura, enfim, uma pessoa boa e agradável sem que tivesse propriamente um passado igualmente sombrio. Era tipo um tiro no escuro, João já estava quase na casa dos 40 e mulheres com essa idade com certeza já teriam todas passado por algum.

João namorou dali para a frente, divertiu-se imenso tal qual Vanessa se tinha divertido enquanto namorava com João. João não queria acreditar na vida alegre a que teve direito de viver fora da sombra de Vanessa que quase lhe acabou por diversas vezes com a vida. Vanessa nunca mais namorou oficialmente, nunca fora vista acompanhada de novo pelas ruas da pequena cidade onde vivia. Cedo ganhou as marcas na cara e no corpo da velhice. Foi vista sempre com o filho e no fim dos seus dias nunca mais fora vista com qualquer tipo de companhia. Quando morreu, alguém escreveu na sua campa:

“Um dia de sol,

Um dia de chuva…

E de novo outro dia de sol…”

 

 

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